quarta-feira, 17 de julho de 2013

Nova modelação

     Alguns meses depois, estávamos novamente nos corredores de um  hospital, e devido ao grande esforço de todos da família Montella que lutaram e se sacrificaram para que a cirurgia de papai fosse realizada com sucesso.
     Tia Gianina, irmã de meu pai, veio da Itália para ajudar todos nós, que ficamos por algum tempo rodando em círculos sem conseguir muitos resultado satisfatórios, tia Nina tinha o quente sangue italiano nas veias, por onde passava, era impossível não ser notada com aquele sotaque e a mania de falar gesticulando, sempre muito bem humorada, até no nosso desespero ela conseguia nos fazer rir, pois naquele momento estávamos precisando não só de meios financeiros mas também de apoio.

    Depois de tanto tempo, consegui me sentir um pouco aliviada, era como se tivessem retirado meia tonelada de cima do meus ombros, mesmo sabendo que a batalha não terminava ali e que de agora em diante teríamos que mudar muitos outros detalhes no nosso cotidiano para se adaptar com o novo estilo de vida que meu pai precisaria, depois que toda a minha vida já tinha sentido a reviravolta daquele inimigo oculto, que me acompanhou durante várias noites me tirando sono, o que seria mudar mais alguns detalhes, para que nosso pai pudesse se reerguer novamente, mais forte e mais firme.

     Foi então que lembrei, que já havia se passado quase meio semestre do ano letivo, e eu não sabia direito nem o nome dos novos alunos que entraram na minha classe, lembrei dos inúmeros trabalhos em grupo que deixei de participar e sem falar das notas, que haviam declinado mais rápido que um carrinho descarrilhado numa montanha russa. Era hora então de voltar como antes, ou pelo menos melhorar para recuperar o que foi perdido, no tempo que eu tinha disponível, entre a meia jornada de trabalho que eu havia conseguido há dois meses, por intermédio de outros funcionários, da empresa aonde Mumuka estava trabalhando, ele havia conseguido um intermédio dentro de uma grande empresa, da cidade de São Paulo, aonde estavam precisando de garotas para limpeza da lanchonete e corredores da empresa, graças a este intermédio que fez com que meus 14 anos de idade, não fosse revelado na empresa, eu tinha conseguido a vaga, e assim, podendo de alguma forma, ajudar com as despesas de minha casa, isso me trazia muito cansaço mais ao mesmo tempo uma enorme sensação de gratidão, por estar também podendo ajudar minha família.

    Mamãe e Mumuka estavam levando a sério a possibilidade de imigrar ao Japão, em busca de melhores salários e trabalho, para assim, liquidar mais rapidamente as dividas contraídas para com a operação e futuros tratamentos, já que então a operação tinha sido aparentemente um sucesso, ela não se sentia mais atada em ficar do lado de meu pai, sendo apenas um peso mórbido e causadora de mais despesas, sim, estávamos em uma situação financeira bem delicada. O casamento de Guto, que iria ser a festa do ano, adiada por tempo indeterminado, e mesmo todos cooperando, tudo era extremamente calculado antes de qualquer providencia. Nossa casa havia sido hipotecada, e passamos a ter que pagar aluguel por algo que anteriormente era nosso, mesmo precisando muito para própria locomoção hospitalar, papai vendeu o carro para que não nos faltasse nada, esse sempre foi o que ele dizia "custe o que custar, nunca deixarei faltar nada a minha família, principalmente amor", lógico que na situação em qual nos encontrávamos, amor era um sentimento que não precisávamos demostrar um aos outros, porque era mais que óbvio que a nossa luta, era uma luta conjunta em nome do amor e devoção a nosso pai. Até Melissa, minha futura cunhada, abria mão de alguns luxos anteriormente exigidos por ela, à meu irmão, para ajudar em casa, ela era sim a esposa que meu irmão merecia ter, atenciosa, carinhosa e dedicada, eles já estavam juntos a cerca de três anos.

     Eu tentava conciliar meus horários entre minha casa e alguns cuidados prestados a meu pai, com os estudos, e meu novo trabalho, que na verdade não seria tão difícil de encará-lo se eu não escondesse algo, pois se tem uma coisa, da qual eu nunca obtive muito sucesso até os dias de hoje, era mentir, e as vezes eu era obrigada, até mesmo ser um pouco indelicada com as pessoas, para que elas não puxassem papo comigo, pois no fundo eu sabia, que mais hora menos horas, eu mesmo sem notar iria dizer coisas que eu não poderia, pois seria muito prejudicial a mim naquele momento.
     Mas eu tinha feito alguns anjos da guarda naquela empresa, uma secretária que atendia pelo nome de Zilda, uma senhora já de meia idade, que vez ou outra eu cruzada pelos corredores, fiz também um amigo, o Paulo, que já trabalhava na empresa desde seus 16 anos, e que havia começado como eu, de serviços sem muita importância e considerado ultrajante para muitos que frequentavam aquela empresa, era mesmo grande, um prédio inteiro, cada setor divido por andares, eu nunca em toda minha vida tinha estado em um local tão alto padrão como aquele, hoje Paulo com seus 25 anos, era auxiliar-geral do chefe de recrutamento.
     Eu tentava na medida do possível ser o que eu sempre fui, simpática e conversadora, mas muitas vezes eu notava que alguns empresários não davam muito valor ao tipo de serviço que executava ali, uns outros as vezes chegavam a menosprezar a ala serviçal e alguns outros eram aparentemente simpáticos, claro que em hipótese nenhuma, eles foram mal educados ou grosseiros, era notável que a educação daquelas pessoas que circulavam apressadamente por todos os lados daquele prédio, tinham uma educação exemplar, mas eram pessoas que viviam tão apressadas, que as vezes eu pensava se eles tinham tempo para outra coisa a não ser trabalhar, cumprir horários e agendas lotadas, e num desses meus pensamentos, eu me vi com aquela pergunta martelando minha cabeça "o que você vai ser, quando você crescer"?
      Era meu primeiro contato com o mundo empresarial, eu estava dentro de um prédio que fazia parte, dentre outros no meio da cidade, no coração da metrópole, aonde praticamente todas as negociações eram realizadas, era notável que ali não era local de crianças ou adolescentes, que ainda sequer tinham um ideal ou uma meta na vida, sem bem que eu tinha um ideal e uma meta, algumas talvez bem distantes, mas a que se fazia presente no meus dias, era simples e eu me concentrava todos os dias, para não perder o foco e dar conta dos meus afazeres, dentro do tempo estipulado. Tempo era uma "coisa" ou um instrumento valiosíssimo por ali.

     Havia alguns dias, que as mocinhas que ali também trabalhavam na lanchonete, estavam inspiradas e conversadoras, nessas oportunidades eu procurava me enturmar, mas mesmo elas fazendo o mesmo tipo de serviço que eu ali, o poder aquisitivo das duas partes eram diferentes, ela trabalhavam apenas para ter uns trocados à mais para gastar com elas próprias ou passeios, coisas que estavam bem longe ainda dos meus planos, por mais que eu tentasse fazer parte do grupo delas, eu me acanhava e me esquivava dos inúmeros convites para ficar de paqueras no bar e lanchonete da avenida, que parecia ser um 'point' de encontro do mesmo pessoal apressado e corrido daquelas empresas.

    Uma vez, eu tinha um tempo disponível e resolvi ir conferir como era, junto de Alice e Nathalia que insistiram muito, dizendo que eu era a única que nunca tinha dado as caras por lá, e incrível foi a minha percepção de que as pessoas apressadas e com as agendas lotadas de compromissos, haviam temporariamente desaparecido, daqueles rostos sorridentes entre um copo do cerveja e outro, eu prestava atenção aos detalhes, e ao mesmo tempo, me colocava a pensar, se era por isso que todos viviam tão apressadamente dentro daquele prédio, eu ri comigo mesmo.

     Não pude deixar de notar a entrada triunfal de uma moça, que definitivamente não fazia partes dos funcionários de nenhuma daquelas empresas, pelo meus olhos à avaliar seu caminhar e sua vestimenta, era algo milimetricamente feito para o corpo dela, como se fosse feito sobre medida, perfeito em todos os aspectos, ela seguia em direção do balcão de pedidos, e logo atrás dela um homem, que eu fiquei curiosa, mas evitei de perguntar para as meninas, se se tratava de um body guard, e para minha surpresa, nem precisei ficar muito tempo na curiosidade, pois entre elas comentavam como era bonito o segurança particular de Dna. Laura, então eu nem me atrevi a procurar saber quem era essa senhora, continuando a rir comigo mesmo.

     Muitos acontecimentos engraçados para meus olhos de 'marinheira de primeira viagem' era registrado por mim, aquele era o chamado happy hour empresarial, aonde todos os funcionários se encontravam, para relaxar um pouco do estressado turno de trabalho, afinal, não era só eu que achava que estava sendo dureza levar aquela vida corrida de estudante, casa e trabalho, era como se todos estivessem no mesmo barco, em busca de um horizonte, uma passagem para algo melhor e maior, mas muitos, inclusive eu, não tínhamos idéia do que, ou de como ou quando.

     No caminho de volta para minha casa, dentro daquele ônibus apertado, que eu costumava usar mas nunca tão congestionado como naquele horário, tentando encontrar respostas para milhares de outras perguntas novas, que eu havia conseguido coletar naquele happy hour, ao ver pessoas bem sucedidas, outras um pouco menos, reunidas num só ambiente felizes e sorridentes. Isso me dava a ideia, que mesmo com toda a diferença social que havia, no fim, as pessoas eram todas iguais, pessoas que buscavam sonhos variados, lutavam com o que tinham ou como podiam, então me dei conta de que, deveria me dedicar mais aos meus sonhos do futuro, procurava dentro de mim, algo que me desse cada vez mais a certeza do que eu queria ser quando eu crescer (a pergunta que virava e mexia, estava dentro dos meus pensamentos), eu procurei dentro de mim, pelas coisas que eu gostava de fazer, em busca de um oficio que não me obrigaria a trabalhar se quer, nenhum dia, afinal, quando há satisfação interior no que se faz dia à dia, não há a sensação de obrigação, sendo assim satisfatório acordar e trabalhar todos os dias.

     Ao invés de ir direto para casa, resolvi então dar uma parada na biblioteca, local aonde fazia bastante tempo por onde eu não passava desde que começará a luta a favor da saúde de meu pai, ao chegar lá, me senti com aquela sensação de estar de volta ao lar, aquele cheiro de livros velhos misturados com os novos, poder observar as pessoas se movimentando delicadamente para evitar fazer barulho, o silêncio soou aos meus ouvidos como música tranquilizante, depois das horas passadas naquele bar, no meio de gente sorridente e barulhentas.

     Dias depois, voltei também aos treinos na academia, passei a dedicar mais tempo aos novos amigos da classe e também as velhas amizades, tentei na medida do possível colocar todos os trabalhos atrasados em dia, mesmo que não valessem mais notas naquele semestre passado, assim ao menos me colocava em dia do que havia se passado na escola, nos dias da minha ausência. Enfim, parecia que a vida antiga estava se adaptando a nova, e tudo estava voltando a ficar equilibrado.




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