Num dia pela manhã ela saia de casa, cheia ainda da milhares de perguntas que ela fazia sempre pra sí mesma, ela fazia uma avaliação da evolução das pessoas, da sua fase de crianças à adolescência e fase adulta, não havia muita diferença, às vezes, apenas números, pois os adultos eram de certa forma irresponsáveis e talvez mais habilidosos em esconder seus medos e duvidas, ao contrário das crianças que não tinham medo de demonstrar sua insegurança pois estavam em fase de aprendizado, os adolescentes de certa forma, eram repreendidos na maioria dos casos, por se sentirem perdidos nesse intervalo entre a pureza e fantasia para a fase teatral e ainda sim, fantasiosa, pois a maioria dos adultos ainda não tinham a menor ideia do que realmente queriam para sua vida. Fase teatral era definida por ela, por ela poder notar, a diferença de costumes e hábitos dos companheiros de trabalho, "ontem, lá no barzinho, esse carinha me cumprimentou com um belo sorriso e hoje parece nem me reconhecer, por trás deste balcão, naquele momento eu nem sabia o nome dele, e mesmo assim retribui o boa noite, hoje com um crachá no bolso da camisa, eu sei que ele se chama Jonas, e de repente, depois de descobrir seu nome, a simpatia dele havia sumido!" - pensava ela.
Ela chegava a conclusão de que os adultos tinham vergonha de si mesmo, ou teriam algum problema em assumir sua real personalidade, Rosana que sentava a nossa mesa no barzinho, que reparava em todos os homens naquela noite e comentava sobre eles, no escritório era uma assistente em computação que não teria tempo ou não notava nem as pessoas a sua volta, pois ela não parou nem pra saber o que tinha dentro da xícara que estava ao lado do seu computador, antes mesmo de levá-la a boca.
Alice e Nathalia, que de alguma forma eram como Luana, as mais novas tanto em tempo de trabalho como de idade, tinham elas uma certa conexão, que dava mais certo, e que aos olhos de Luana, era de alguma forma mais sincero o relacionamento profissional delas.
Entre esses e muitos outros pensamentos que acompanhavam Luana, dentro dos corredores da empresa, fazendo as entregas dos pedidos em cada mesa, eis que em um dos corredores, de uma das portas sai uma mulher impecavelmente linda, num vestido perfeitamente ajustado a seu corpo, completamente furiosa e apressada e tromba com o carrinho que Luana empurrava, derramando tudo e causando uma tremenda confusão, a mulher dá um grito de ira contra Luana, acusando-a -"Menina idiota! Olha o que você fez com meu vestido."
- Me desculpe, senhora, não foi minha culpa. Responde Luana completamente atordoada e notado que se tratava da mesma mulher que entrava no bar, naquele tarde anterior, que as meninas disseram ser a Dna. Laura, de perto, ela era ainda mais linda, sua pele branca mas levemente bronzeada, cabelos loiros muito bem cuidados, lindos olhos azuis que no momento estavam vermelhos de tanta fúria, entre muitas outras qualidades, que era tudo o que Luana podia notar naquele momento.
- Menina irresponsável, você sabe quanto custa um vestido desse? Grita Dna. Laura olhando e mostrando a mancha causada pelos sucos e café do carrinho.
Quase implorando por desculpas, mais uma vez Luana pede desculpas, tentando explicar que a culpa era de Laura, o que seria inútil naquele momento, - Me perdoe Senhora, mas eu nem sei de qual lado a senhora apareceu trombando com o carrinho e ....
- Menina idiota, você não olha por onde anda, você gosta de derrubar café e iguarias nas pessoas? Se ponha no seu lugar serviçal... sabe quanto custa? Arghhhh!!! Você teria que trabalhar no minimo um ano pra pagar um desses! Que ódio, quem foi o idiota que te contratou?
- Calma Senhora, eu posso.... errr.... tentar tirar a mancha, ou....
- Você acha mesmo que eu daria um vestido desses na sua mão pra você terminar de acabar com ele? Seria a mesma coisa que jogar meu dinheiro aos pobres! Irritadíssima Laura ainda fazia escândalo no corredor, quando um dos anjo da guarda de Luana apareceu, Zilda tentou controlar a situação levando Laura pra uma sala reservada, que mesmo assim saiu gritando pelos corredores "Essa menina idiota, acha que vai continuar trabalhando aqui, pra continuar sugar da empresa e estragar as pessoas que andam aqui dentro, ela está muito enganada...."
Zilda fazia gestos pra Luana arrumar toda a bagunça, e completamente sem entender nada, ela começa a limpar toda a confusão criada por aquela linda mulher, quando ela se da conta, parecia que o escritório todo, parou por alguns segundos durante a cena, Luana que por todos esses meses tentou de todas as formas não chamar a atenção das pessoas na empresa, notou que naquele momento, todos os olhos estavam focados nela, e uma sensação de muito desconforto invadiu-a, fazendo de alguma forma a sentir culpada pelo ocorrido.
No final do expediente, Luana ao encerrar os últimos detalhes da sua jornada de trabalho, o mesmo gentil senhor Claudio que havia contratado-a meses atrás, mesmo sabendo a sua idade real, chamou-a reservadamente para esclarecer o ocorrido pela manhã no corredor da empresa, e mesmo sabendo que Luana contava a versão real do fato, ele explicou que como havia o fato da idade dela não poder ser revelada, aos registros da empresa, a pedido de Laura, ele estava sendo pressionado a pedir para que ela se retirasse da empresa, ele explicou que não era a gosto dele, e que ele e todos estavam muito satisfeitos com os serviços prestados, mas que se o departamento de recrutamento, descobrisse a verdade sobre a idade dela no momento da contratação, a situação de todos que sabiam do fato na empresa, iria ficar pendente de diversas demissões, sendo assim, deixava à Luana decidir o que seria melhor fazer. No mesmo momento Luana completamente desapontada com o ocorrido, falou que não queria em hipótese alguma que alguém se prejudicasse por causa dela, assentindo assim, que ele editasse a carta de demissão para ela assinar, também deixou bem claro seu agradecimento por ter considerado a necessidade dela, pela contratação, tentando de alguma forma apaziguar o mal entendido causado pela bela mulher, - Não se preocupe Sr. Claudio, eu entendo bem o que o Sr. está tentando me explicar, e não precisa se preocupar, eu sei que não é culpa de nenhum de vocês, e sim daquela mulher, que aliás, você pode me dizer de onde aquela mulher apareceu?
- Ela é a Dna. Laura, namorada ou noiva, não sei direito, do filho do presidente desta empresa! exclamou Sr. Claudio.
- Ah! noiva!? Mas ela tem alguma posição, aqui dentro da empresa Sr. Claudio? questionava, tentando entender...
- Não, que eu saiba, mas ela é contato direto com o presidente, que nunca aceitaria sua contratação com 14 anos Luana, lamentava Claudio.
- É, entendo perfeitamente, bom, só posso agradecer tudo o que o Sr., o Paulo fizeram por mim, se arriscando de alguma forma, para tentar me ajudar, agradeço mesmo de coração viu!?
- Você é um amor de menina Luana, muito esforçada, e se todas as pessoas do mundo fossem como você, teríamos um mundo bem melhor lá fora.
Antes de ir embora completamente, Luana passa discretamente pela mesa de Zilda, deixando um pedaço de bolo, que ela havia pagado do próprio bolso, na lanchonete, agradecendo e explicando o recém ocorrido fato de sua demissão, Zilda fica indignada, mas Luana tenta de alguma forma acalmá-la agradecendo imensamente por toda ajuda sempre prestada e pelo carinho.
Sim ela, se despedia de todos, que de alguma forma ficavam revoltados com a colocação dos fatos, deixando claro que a classe trabalhadora e humilde, era de certa forma, descriminada no status social de uma grande empresa.
Luana ao sair da empresa, pára na calçada e olha para trás, e nesse único momento de olhar, ela vê vitórias e derrotas reunidas num só local, foi ali, de alguma forma, que ela conhecerá uma certa estabilidade financeira, mas ali também, ela aprendeu que para sobreviver entre uma manada de lobos, é necessário antes, aprender a uivar como eles.

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