quarta-feira, 3 de julho de 2013

Inimigo oculto

     Ao saber que meu pai havia passado mal e  tinha sido levado as pressas para um hospital, sem medir consequências com futuros compromissos do dia, lá estava eu sentada num canto de uma das salas de espera do hospital, aguardando por noticias, nesse meu momento de silêncio com meu próprio eu, milhões de porquês passavam pela minha cabeça sem conseguir merecida respostas, mal sabia, que daquele dia em diante tudo em minha vida mudaria, eu seria obrigada a sair de minha zona de conforto automaticamente entrando em outra área muito mais confortável e de satisfação que até então meu eu desconhecia, e que teria uma longa caminhada até ela.

     A espera no hospital era longa, nesse tempo eu não podia deixar de reparar que por ali passavam pessoas apressadas, desesperadas, feridas ou gritando por socorro, na verdade eu queria acordar desse pesadelo e voltar pra minha vida pacata diária.

     Foi quando eu vi entrando as pressas o pessoal do resgate empurrando uma maca,  nela, uma moça loira ensanguentada e pouco mais atrás um homem numa cadeira de rodas também com sangue em suas roupas e mãos e rosto, tentando fazer uma ligação com seu celular e ao mesmo tempo sendo interrompido por oficiais da policia que faziam várias pergunta ao mesmo tempo, eu pude deduzir que se tratava de algum acidente de trânsito, mas com a minha aflição por noticias sobre meu pai eu não conseguia me concentrar em apenas um acontecimento, era como se estivesse absorvendo tudo e todo tipo de informação ao mesmo tempo que acabavam parando num ponto cego dentro de meu cérebro, não conseguindo chegar a conclusão de nenhuma dessa informações.

     Algum tempo depois, passa pelo corredor, o homem que antes fora levado na cadeira de rodas, andando com um pouco de dificuldade com suas próprias pernas, era notável que ele sentia dores ao se locomover em direção ao banheiro, de onde saíra poucos minutos depois ainda com o celular na mão. No momento não entendi, mas ao olhar aquele homem passando, senti um calafrio invadindo a minha espinha, mas minha surpresa foi, que o calafrio que senti naquele momento foi diferente do quando me disseram que meu pai estava no hospital, eu sem entender os fatos e reparando naquele homem que passava lentamente a poucos metros a minha frente, de estatura alta, devia ter uns 1,85cm ou mais, de cabelos castanhos claros completamente despenteados, pele branca e mesmo com algumas escoriações e um resto de gotas de sangue no rosto podia se notar que se tratava de uma pele saudável e muito bem cuidada, mais detalhes de seu rosto eu não pude ver porque por mais que ele caminhava lentamente, ele incansavelmente não tirava os olhos do celular e também não caminhava na minha direção.

     Eu não entendi o porquê e isso me intrigava mais ainda, mas eu não conseguia desfocar a minha atenção daquele homem, os minutos que ele passou dentro do banheiro, aparentemente se limpando, pareciam ter sido décadas para mim que estava do lado de fora, esperando sem saber porque e ansiosa que ele saísse pela porta, como se assim que ele passasse novamente pela minha frente, eu pudesse então entender por qual razão ele teria conseguido sem nada fazer, desviado tanto o foco da minha preocupação com meu pai.

     Ele saiu, e parecia que enfim tinha conseguido completar a ligação que estava tentando fazer desde que entrou pela porta de emergência daquele hospital, ele parou de costas bem na minha frente, e era impossível por mais que eu quisesse não ouvir o que ele relatava pelo telefone, pensei que enfim iria conseguir alguns esclarecimentos as milhares de perguntas que eu fiz para mim enquanto ele estava dentro do banheiro, ele explicava que havia sofrido um acidente no trânsito, e pelo fato da moça estar desacordada e por aquele ser o hospital mais próximo de onde acontecerá o acidente, ele não estava ali por escolha própria, os pára-médicos tinham encaminhado eles para lá, foi então que eu notei que mesmo com as roupas amassadas e estragadas pelo acidente, aquele homem tinha um status bem diferente de meu e de todas as outras pessoas que buscavam ajuda naquele hospital, fitei sem querer os sapatos dele, meus olhos estavam trabalhando por vontade própria fazendo uma completa medição daquele corpo, daquele homem, ainda ali parado na minha frente, notei que se tratava de sapatos caríssimos, daqueles que eu via os artistas famosos usando, coisa fina que nem mesmo nos shopping que eu estava acostumada a ir de vez em quando, não se via com frequência.
Por um segundo me perguntei se ele era algum artista famoso que eu não havia reconhecido, automaticamente meu corpo também se moveu sozinho, mudando de cadeira para um ângulo lateral, para ver se eu conseguia ver o rosto daquele homem, foi quando ele começa a andar seguindo sentido a porta principal do hospital, naquele instante pensei que caso se tratasse de alguém famoso, eu tinha acabado de perder a oportunidade de conhece-lo com um tom irônico e de zombaria comigo mesmo.

    Agora que não tinha mais o homem famoso -alguma coisa em mim riu, pra distrair a minha atenção, estava novamente 100% preocupada com a longa espera por noticias de meu pai, procurava de alguma maneira encontrar algo pra me distrair, mas o clima entre eu, meus irmãos e minha mãe era tenso, nenhum de nós estava disposto a conversar seja qual assunto fosse. Foi quando surge no fundo do corredor meu pai acompanhado de um médico, eu corri ao encontro dele abraçando-o e perguntando se ele estava e se sentia bem, todos com olhares apreensivos por tamanha espera, muito gentilmente o médico nos convida a entrar numa salinha pequena para que ele possa explicar detalhadamente o resultado de todos os exames feito. 

     Eis que todos ficaram chocado quando o médico explicava detalhadamente que meu pai tinha um adenocarcinoma estomacal, que resumindo numa linguagem que pudéssemos compreender, um câncer no estômago, que seria necessário uma cirurgia o quanto antes, e futuros tratamentos de quimioterapia e radioterapia.

    Saímos juntos do hospital para enfim irmos para casa, foi quando eu sem notar e como se fosse um feitiço malvado que acabará de começar, e eu não poderia nem imaginar que uma sucessão de coisas e acontecimentos ruim, estavam pra acontecer na vida de todos na minha casa.

    O primeiro obstáculo não era mais saber o quê, e sim como, como iriamos ter condições de custear uma cirurgia sendo que sempre fomos uma família saudável e por quase nunca precisar de tratamentos médicos, não tínhamos se quer nenhum convênio ou seguro de saúde que pudesse custear a cirurgia, e sabíamos que por se tratar de um câncer não poderíamos adiar por muito tempo, para salvar a vida de meu pai, avaliamos meios, procuramos informações ou entidades que pudessem fornecer meios para realizar a cirurgia, mas todos em vão. 

    Depois de alguns dias, Murilo decidiu largar a escola para poder trabalhar, e começou a busca por uma colocação. Gustavo havia conseguido um empréstimo bancário, mas não era suficiente para custear toda a cirurgia e os tratamentos posteriores. Mamãe procurou por ajuda na família, sem muito sucesso, pois quando ela se casou com meu pai, toda a família foi contra, por meu pai não ter descendência japonesa, o que para a família era cortar laços de sangue e cultura de sua raça. Papai foi obrigado a reduzir sua carga horaria no trabalho, sendo assim seu salário que com muito custo dava pra sustentar nossa casa, ficou reduzindo, fazendo com que Guto adiasse seus planos de casamento com Melissa, que era pra se realizar no final desse ano.
     Mamãe ao conversar com um dos parentes, ficou sabendo que muitos de nossa família estavam indo para o Japão, em busca de trabalho com um salário melhor visando algo no futuro, de imediato ela comentou sobre sua descoberta, cogitando talvez a possibilidade de essa ser uma saída para a nossa situação, todos se colocaram a pensar no assunto, eram muitas decisões a serem tomadas, numa corrida contra o tempo, não só da nossa disponibilidade, mas também de uma vaga nos hospitais para tal cirurgia e tratamento.

    A vida da minha família havia sido completamente virada de cabeça para baixo, com muitos e variados problemas e de imediato, por mais que todos estavam unidos para solucioná-los, não tínhamos condições nem solução para tudo.







Nenhum comentário:

Postar um comentário