No dia seguinte, Luana acordou cedo, como era de costume, vestiu-se e para espanto de seus pais, que perguntaram para onde ela iria tão cedo, brevemente, ela explicou que o telefonema de ontem, era porque haviam reconsiderado a demissão dela, e que ela estava de volta ao trabalho, saindo de casa toda apressada e ansiosa, o que na verdade não era o fato de ter o trabalho de volta, que fazia com que ela tivesse tanta pressa em chegar na empresa, no ônibus, questionando-se o por quê de toda aforia, se ela sabia que não se esbarraria com aquele homem tão estonteante novamente.
Na rotina de seus primeiros afazeres novamente, no May's Café, quando se costas foi surpreendida por uma voz aveludada, que ao ouvir "Bom dia", uma estranha e tão confortante sensação invadiu seu corpo, e ao virar-se, deparou-se com o mesmo homem, muito bem vestido, num terno sob medida sobre sua camisa azul e gravata com tons amarelados, numa combinação perfeita e harmoniosa, ele tão perto e tão distante ao mesmo tempo, pela pouca distância era notável sua pele de porcelana, sobrancelhas alinhadas e bem feita, lábios rosados e dentes perfeitamente alinhados, num sorriso brando acompanhando o bom dia, fazendo-a acidentalmente, derrubar o copo que estava em sua mão, pela surpresa e susto causado pela presença dele ali, sem nenhum aviso prévio, ao notar o acidente, pois até então ela só tinha conseguido notar a presença dele ali, tentando reparar a bagunça, responde:
- Ah! Desculpe-me, isso não acontece com frequência. Desculpe-me Senhor, Bom dia! Err.... Ahm... Posso lhe servir algo? Ou... Nossa, estou meio atrapalhada neste momento.
Com um sorriso entre os lábios, eis que mais uma vez, aquela mesma voz aveludada lhe soa aos ouvidos como a melhor e jamais ouvida melodia, - Tudo bem, eu causo certo embaraço de vez em quando, você é a Luana?
Espantada, por ele já saber até seu nome, - Sim, sou eu. Ahm... Luana, sim esse é meu nome! E você?!... falando consigo mesmo, mas num pensamento mais alto, - Como eu sou idiota, eu sei quem é você, quer dizer, eu acho que sei, pelo menos sei o que a Zilda me disse ontem.
- Isso, se eu soubesse ontem que era você, teria pedido pra lhe falar, ontem mesmo, mas só depois a Zilda me disse.
- Ahm... algum problema Senhor... Marcel, isso? Esquecendo completamente que Zilda havia comentado que ele iria desculpar-se pelo ocorrido.
- Não nenhum, se você não quebrar mais nenhum copo. Sorrindo ao falar, com a intenção de quebrar o nervosismo do momento.
- Desculpe-me, foi a primeira vez que isso aconteceu, eu juro!
- Não precisa jurar, eu só estava brincando, é só um copo! Eu vim mesmo para me desculpar, pelo mal entendido, que gerou a sua demissão temporária, na hora eu não tomei conhecimento, somente depois que a Zilda me comunicou do ocorrido, e de alguma forma tentando reparar o erro, pedi para que ela lhe trouxesse de volta.
- Não precisa se desculpar, eu falei para Zilda ontem, que não havia necessidade, afinal, não foi você que, me... atropelou e causou toda aquela confusão no corredor.
- Não foi eu diretamente, mas foi por minha causa que a Laura saiu furiosa daquele jeito. Com um sorriso amarelo, ele tenta explicar o porque do pedido de desculpas. - A Zilda me falou, que você trabalha para ajudar alguém da sua família em dificuldade de saúde, isso? Então não achei justo, você perder o emprego.
- Meu pai, precisa ainda de algumas sessões de químio e radio.
- Acho isso muito legal, se bem, que deve ser corrido para você? Você estuda também?
- Sim, estudo a noite.
Olhando por entre o balcão, e as coisas pessoais ainda deixadas ali, completamente a mostra, Marcel percebe um livro - Hum! Shakespeare?!
- É, Romeu e Julieta!
- Você gosta de poesia?
- Bem, eu gosto de variados tipo de leitura, apesar de ser raro encontrar certos exemplares.
- Como o que por exemplo?
- Bom, eu gosto muito de Dostoiévski, Bukowski, Confúcio e agora estou lendo Nietzche, e claro Shakespeare sempre Shakespeare, eu adoro o modo como ele brinca com as frases aleatoriamente, dando numa só frase vários sentidos. Dotoiévski é pura literatura, eu gosto muito e leio sempre com muita atenção. Confúcio e seu modo de exibir a verdade torradeira à seu modo. E confesso que Nietzche está dando um bocado de trabalho para compreender o modo que ele escreve, mas é bem interessante, é como se fosse um exercício para a cabeça. Own, desculpe-me, eu me empolguei!
- Interessante, qual sua idade? Sem ser grosseiro, claro... mas para ter lido tudo isso, você precisa ter no minimo uns 30 anos, a não ser que você tenha lido somente um livro de cada escritor?!
- Não, eu leio um livro em dois ou três dias! Eu já lí quase todos livros de Shakespeare e Dostoiévski, de Confúcio e Bukowski é difícil achar certos exemplares e Nietzche já estou lendo o quarto ou quinto livro.
- Três dias no máximo?
- Bom, é como eu disse, Nietzche, está dando um pouco mais de trabalho, ele é muito complexo ao mesmo tempo sem nexo, com todas explicações reunidas numa só coluna de amontuados de palavras, e eu gosto de entender, por mais que eu não compreenda. sibilando um sorriso nos lábios. Você lê?
- Hummm, alguma coisa sim, mas não compulsivamente assim. Conheço um pouco dos escritores que você falou, mas nunca me aprofundei no assunto.
- Eu gosto, ele ajudam a entender algumas coisas nos dia de hoje!
- Você está me dizendo, que a literatura de centenas de anos atrás, funciona ainda nos dias de hoje?
- Algumas coisas sim! Bom, se adaptar aos acontecimentos, visando as palavras deles de forma mais modernizada e atualizada, eu acho que sim.
Toca o celular de Marcel, e ele atendendo e se despedindo ao mesmo tempo.
- Desculpe, eu preciso atender essa ligação, um bom dia para você e desculpe novamente, pelo ocorrido anteriormente!
- Um lindo dia para você... errr... para o Senhor também!
Ao desaparecer pelos corredores do elevador, Luana enfim, respira aliviada e tenta entender o que foi aquilo? De onde aquele homem, tão simpático surgira? E por qual propósito, teria ele saído de sua zona de conforto, apenas para desculpar-se por um incidente causa por terceiros, que sai furiosa pelos corredores, atropelando tudo e todos a sua frente? Qual a real intenção dele, em puxar assunto, perguntar sobre a idade? Que belo sorriso tinha aquele homem, e os olhos continuavam a ter um imã, que puxava seus olhos para a imensidade daqueles olhos azuis, tão azuis com alguns tons esverdeados, jamais visto por seus olhos cor de mel, e que perfume era aquele, que pairava ainda no ar, mesmo já com a ausência da presença dele ali, e quanto mais ela pensava no assunto, mais vinha a lembrança da tarde passada com as amigas, em estados eufóricos, por um baile, para encontrar a verdadeira causa de toda animação. Ele mal acabará de sair diante de seus olhos, e a vontade de poder vê-lo novamente, era muito intensa e devastadora, pois a incerteza de que o fato se realizaria outra vez, era um tanto mórbida.
No intervalo, Luana subiu os andares, em busca de mais informações, em busca de Zilda, que havia comentado algo, que já conhecia Marcel, desde antes mesmo de seu nascimento, mas, tão atarefada estava, que não querendo incomodar, retirou-se e voltou para os andares de baixo, por mais que se concentrasse em tentar, terminar Shakespeare, ao ler as mesma palavras do escritor, sua cabeça usava a imagem de Marcel comparada a de Romeu, e sem que ela mesmo percebesse, estava completamente apaixonada, pelo tão simpático homem proibido.

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